Comunicado de Imprensa - 23/10/2015

Jornalismo - Carolice sobrepõe-se a estratégias empresariais 

Livro sobre a imprensa regional na era digital em apresentação no ISMT esta segunda feira, pelas 15h30. No mesmo dia, um pouco antes, pelas 14h00 decorrerá uma conferência proferida por Hélder bastos, docente da Universidade do Porto, intitulada «Ciberjornalismo-20 anos made in Portugal».

A tradição de produção para o papel, os recursos humanos e o tempo são os principais factores que determinam as rotinas de produção de notícias online na imprensa regional portuguesa. Conclusão que podemos encontrar em “Ciberjornalismo de proximidade: Redações, jornalistas e notícias online”, da autoria de Pedro Jerónimo, docente do ISMT.

O livro agora publicado é o resultado de uma tese de doutoramento, na qual o autor procurou responder sobretudo a duas questões: Que tipo de conteúdos produz a imprensa regional no âmbito do ciberjornalismo? E quais são os fatores que determinam as rotinas de produção do ciberjonalismo na imprensa regional? 

“Embora estejamos a comemorar os 20 anos do ciberjornalismo em Portugal, a realidade é que esta é uma área recente de estudo. No caso concreto dos media regionais e locais, paira o quase desconhecido, embora o número publicações ultrapasse as mil”, começa por justificar Pedro Jerónimo, cujo primeiro contributo é precisamente uma panorâmica daquilo que se passa no país. “O objectivo inicial era 'mergulhar' em três casos concretos e estudá-los em profundidade. Porém, como entretanto percebemos que a investigação era escassa, decidimos começar por traçar um quadro geral da presença da imprensa regional na Internet”, adianta. Desse percurso é feito uma radiografia pouco animadora: copiar os conteúdos dos jornais para os próprios sites é a prática mais frequente nas redacções. “Encontrei alguns casos em que são publicados vídeos, oportunidade que o papel não permite. Ainda assim são poucos os jornais a fazê-lo, sobretudo se estivermos a falar de produção própria”, acrescenta. E a justificação avançada tem a ver com o facto de serem ainda as edições em papel aquelas que centram a atenção dos jornalistas e administrações. Pedro Jerónimo, sobre o seu principal objecto de estudo, aponta a carolice de alguns jornalistas como o principal mobilizador do jornalismo feito com e para a Internet. “À excepção de um caso, que assume claramente o papel e a Internet como meios, nos restantes o que podemos encontrar nas versões online dos jornais regionais é o resultado do voluntarismo de alguns jornalistas que, acumulando trabalho e sem receberem mais por isso, assim os vão mantendo. É mais a carolice que reina nas redacções regionais em relação ao online do que propriamente estratégias empresarias”, sublinha. 

O trabalho agora publicado pela Editora LabCom.IFP, é o resultado da tese “Ciberjornalismo de proximidade: A construção de notícias online na imprensa regional em Portugal”, defendida na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, em Janeiro de 2014, no âmbito do doutoramento em Informação e Comunicação em Plataformas Digitais. 

Pedro Jerónimo, 35 anos, de Leiria, é professor auxiliar no Instituto Superior Miguel Torga (Coimbra), investigador integrado do CETAC.MEDIA e do Observatório do Ciberjornalismo, co-coordenador do grupo de trabalho Jornalismo e Sociedade da SOPCOM – Associação Portuguesa de Ciências da Comunicação e editor da revista científica Estudos de Jornalismo. É Provedor do Leitor do Setúbal na Rede e do Diário da Região (ambos de Setúbal) e foi jornalista no já extinto semanário regional O Mensageiro (Leiria), mantendo-se ainda no activo, através de colaborações com alguns média regionais e locais. 

 

Alguns comentários ao livro: 

“O interesse pela informação de proximidade é uma constante na história da comunicação mediada tecnologicamente. O autor entendeu-o muito bem e decidiu meter-se dentro do ciberjornalismo de proximidade para, nesta fase de mudança e reorganização do ecosistema comunicativo, analizar o que caracteriza, define, distingue e identifica os novos meios locais em Portugal.”

Xosé López García

Professor de Jornalismo na Universidade de Santiago de Compostela

 

“Uma análise realista das dificuldades dos meios de proximidade em explorar as possibilidades da Internet e uma magnífica amostra da riqueza da etnografia como método para entender a difícil evolução do jornalismo.”

David Domingo

Professor de Jornalismo Universidade Livre de Bruxelas

 

“Através de um estudo etnográfico, o autor mergulha no Ciberjornalismo de proximidade para nos mostrar como, em quase duas décadas de popularização da Internet, o jornalismo local ou regional português ignorou as oportunidades que a Revolução Digital lhes abria. Como isto não é um problema só de Portugal, mas virtualmente universal, este estudo é uma contribuição importante para o entendimento das dificuldades que jornalistas e empresas jornalísticas enfrentam em sua adaptação ao novo ecosistema mediático, que a cada dia se torna mais diferente do anterior. Fica claro que o ciberjornalismo de proximidade deixou passar ao largo a onda da web, mas agora está diante da oportunidade de surfar na onda dos telemóveis e das redes sociais que estão revolucionando novamente as comunicações.”

Rosental Calmon Alves

Knight Chair in Journalism & UNESCO

Chair in Communication, Director of Knight Center for Journalism in the Americas

 

“Contar a história do jornalismo Internet enfrenta um grande desafio: a evanescência dos media digitais. O que agora é publicado na web geralmente desaparece amanhã. Este livro é o resultado de uma investigação minunciosa, que visa combater esse esquecimento. Ilumina a parte desconhecida do ciberjornalismo em Portugal: a dos media de proximidade. Um contributo precioso para entender o passado, presente e futuro do jornalismo na Internet.”

Ramón Salaverría

Professor de Jornalismo na Universidade de Navarra

 

“O jornalismo enquanto promessa de maior proximidade e, nesse sentido, enquanto promessa de maior democracia enfrenta os desafios postos pela digitalização ancorado em velhos problemas que não lhe permitem grande exuberância. E, ainda assim, subsiste. É de algumas dessas histórias de sobrevivência – longe do universo auto-alimentado dos grandes grupos nacionais – que nos fala este trabalho. É um documento raro, detalhado e muito bem escrito, daqueles que nos fazem falta se queremos melhor saber quem somos.”

Luís António Santos

Professor de Jornalismo na Universidade do Minho